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Mery Rose 
Just fly-by to say Blue Skies!



 
“O pára-quedismo manipula a minha vida!”

Onze vezes compeã Brasileira do pára-quedista Clássico, Mery Rose, com 5.097 saltos,  nasceu no Brasil na cidade de Timbiras, MA.  Seu primeiro salto foi em 1974, após ter participado do curso de pára-quedismo na Academia de Polícia Militar.  Ao pedir ao Comandante que inscrevesse seu nome no curso, o mesmo ficou impressionado com sua coragem e comentou: "Como alguém pode insistir em saltar de um avião?!".  Hoje, como cidadã Americana, Mery Rose tem residência fixa há dezoito anos em San Francisco, California.   É membro do U.S. Parachute Team e voa alto no esporte fazendo parte da elite do pára-quedismo mundial.

Para quem tem sangue de cigano, comodismo é tortura, e lá se foi Mery Rose em  busca de vôos mais altos.  Vendeu a sua casa, deixou um emprego concursado na Eletronorte, em Brasilia, DF,  e partiu para  morar nos EUA,  perseguindo assim o seu sonho e vivendo o seu grande AMOR  -  pára-quedismo.

Mery Rose vive o pára-quedismo intensamente. 
Para ela, o esporte preenche a vida.  É religiosa em valores próprios e se acha vaidosa pelo fato de ser mulher e membro do U.S.  Parachute Team.  Sua fala mansa, atrás de um sotaque meigo, não esconde a obstinação de quem sabe o que quer.

Ao longo da sua carreira, a atleta conquistou 126 títulos.
 Vive ganhando novas medalhas, quebrando novos recordes, registrando marcas e enriquecendo a sua história de atleta bem sucesedida.

“O meu sonho era treinar com a Cheryl Stearns  (bi-campeã mundial) e ser membro do U.S. Parachute Team.  Hoje, a Cheryl é minha amiga, minha técnica e companheira do U.S.A. Time. 




"Nunca houve um dia em que eu nao tivesse orgulho de ser uma para-quedista!" - Disse sorrindo - 

    
     Mery Rose não quer passar pela história,


quer participar vivendo intensamente.

Recordes
Primeira pára-quedista brasileira a representar o Brasil em competições internacionais;  primeira pára-quedista brasileira a conquistar a marca de 1.000, 2.000, 3.000, 4.000 e 5.000 saltos, confirmando mais uma vez o seu recorde feminino brasileiro em número de saltos e em número de horas de queda livre, que lhe pertence há mais  de 27 anos.  

Guiness Book - Recordista mundial
Quebrou o recorde latino-americano de maior número de saltos em um dia e o recorde latino-americano de salto de maior altitude.  É membro do recorde mundial de salto em massa, registrado no Guiness Book of World Record - 200 atletas.  E foi convocada a representar o Brasil no show de abertura das Olimpíadas de Seul, Coréia do Sul, em 1988.
  

2001 WFFC-Atleta do Ano
M
ais recentemente, Mery Rose representou a Califórnia no Campeonato Americano de 2001, na Skydive Arizona, e conquistou a medalha de bronze.  Subiu ao pódio com as duas pára-quedistas mais famosas do mundo, Cheryl Stearns, bi-campeã mundial e Elisa Foldt, campeã mundial das Forças Armadas.  As duas atletas são militares do Exército Americano e pertencem ao famoso "Golden Knights Team".   Durante o WFFC-World Free Fall Convention 2001, o seu time foi campeão na modalidade "Sport Accuracy", ela ficou no terceiro lugar individual e ainda foi surpreendida pelos os organizadores do evento ao receber o título de "WFFC-Atleta do Ano". 

Sonho realizado
Hoje, como membro do U.S. Parachute Team, o seu time classificou-se no terceiro lugar durante a Copa Mundial de 2005, Rússia,  e subiu novamente ao pódio com as melhores do mundo.  Medalha de prata individual no Mundial POPS 2006.  

Apaixonada pelo o esporte
Mery Rose ama fazer shows de pára-quedismo, mas na verdade seu maior sonho é conquistar um título no campeonato mundial, na modalidade PAI-Precisão de Aterragem Individual.  Para isso, deixou pra trás a família, velhos amigos, empregos, dois divócios.... e hoje vive a vida de "Blue Skies!" participando de uma série de treinamentos físicos e de saltos, visando as primeiras colocações nos U.S.  Nationals e nos campeonatos mundiais.

5.000 saltos

Recentimente, Mery Rose completou o salto de número 5.000, durante a temporada de treinamente de precisão que ela organizou na Skydive MeryRose, em Marana, Arizona.  Eu já realizei os sonhos da minha vida.  Se eu não ganhar nenhuma medalha no campeonato mundial, continuarei feliz como membro do U.S. Parachute Team e me divertindo com as minhas companheiras de time."  - Completou sorrindo -

Mery Rose, uma sonhadora, paga o preço dos seus sonhos sem discutir, pois a sua perseverança a faz enxergar mais longe, além dos limites que, para ela, são provisórios.  Ela não quer passar pela história, quer participar vivendo intensamente.  E com os olhos sempre voltados para o futuro,  vive sonhando com novos títulos, novos recordes e zela cuidadosamente pelo seu nome registrado na história do pára-quedismo mundial como a atleta mais saltada do Brasil.

Mery Rose no Alvo
 
  
 
   

Nome: Mery A. Rose
Onde nasceu:
Timbiras, MA-Brasil
                                                         
Onde mora: San Francisco, California-USA
Onde gostaria de morar: Em uma casinha, no topo de uma árvore, perto de uma área de salto.
Onde salta:  Em várias DZs; onde o  U.S. Parachute Team treina.
Quanto tempo você pretende ficar no esporte?
Depois de 34 anos de pára-quedismo, agora, mesmo que eu quisesse deixar o esporte ele não me deixaria!
Uma vaidade: Ter muitos amigos dentro do esporte.
Uma qualidade: Ser membro do U.S. Parachute Team.
Uma frase: Pára-quedista não tem medo de viver, vive tanto que até voa!
Um verso de vossa autoria:  "Qualquer horinha dessas iremos nos encontrar, quem voa sempre se encontra, ou aqui ou acolá!"  - risos -  Ah!  tem outro, eu gosto muito deste;  "Não pensem que eu pulo se o verbo é saltar, de salto entendo tudo e saltar não é pular!".
Quais os seus planos para o futuro?
Continuar treinando com os melhores do mundo, participar de competições nacionais e internacionais, ganhar novas medalhas e conquistar novos amigos.
O que você mais gosta no pára-quedismo?
A porta do avião a qualquer altura acima de 2 mil pés!
O que você não gosta no pára-quedismo?
De gostar dele demais. Ser fanática de carteirinha!
Como o pára-quedismo surgiu na sua vida?
Fui eu quem surgiu na vida dele! Há 34 anos atrás eu saltei de pára-quedas dentro do esporte e até hoje vivo, literalmente nas nuvens!
Como é que você consegue viver no meio de tantos homens?
" Muitos risos...." vivendo num paraíso moderno... o paraiso de Eva só tinha um Adão e então... tudo ficou sem graça!
Onde você encontra tanta energia?
No céu!
Descreva a Mery Rose em cinco (ou mesnas) palavras: 
100% Pára-quedista, Pink, generosa, artista,  amiga...
O que que você sente quando salta?
Eu sinto o meu corpo jogado no ar e a minha alma solta no espaço, como flutando.... assim como se fosse num sonho.  Eu sinto ainda o Vento o Vôo e a Vida...  como uma leve sensação de embriaguês provocada pelo coquetel de sentimentos fortes que se resumem em AMOR!  Eu AMO o pára-quedismo mais do que tudo na vida!
Se você não fosse pára-quedista, o que você acha que seria?
Não consigo nem pensar!….. cada dia eu tenha mais certeza que eu nascí para ser pára-quedista.  O amor entre mim e o pára-quedismo é recíproco e verdadeiro.
O que você mais ama além do pára-quedismo?
I Love Me!
Finalizando, o que você diria aos novos adeptos do esporte?
Nunca houve um dia em que eu não tivesse orgulho de ser uma pára-quedista....   Aqui segue minha cartilha inseparável:  Só entro no avião depois de totalmente equipada. A cada salto estou condicionada a uma nova pane; capacete e cypress (disparador automático) são indispensáveis.  Jamais uso equipamento emprestado.  Manutenção no equipamento de 4 em 4 meses e sempre fico de olho na minha navegação e na biruta na hora do pouso.  Nunca faço curvas radicais abaixo de 500 pés de altitude e quando quero praticar novas modalidades dentro do esporte, sempre procuro ter instruções com pessoas credenciadas no assunto.

Mery Rose
 

MeryRose.Com Team 



  

Como o Pára-Quedismo surgiu na minha VIDA?!

Eu costumo dizer que fui eu quem surgiu na vida dele!  Há 30 anos atrás eu saltei de pára-quedas dentro do esporte e até hoje vivo, literalmente nas nuvens!

Quando eu era criança, vivia contando nos dedos quantos anos faltariam para ficar adulta e poder me tornar pára-quedista.  Por que esse sonho?!  Bem, porque eu achava que abrir a porta de um avião, lá em cima no céu e me atirar dele, seria um ato inegável de bravura.  Resultado:  todos os homens do mundo iriam me querer como esposa!

Aos 19 anos de idade, um amigo chamado Roberto vivia me perguntando quando eu iria finalmente decidir ser sua namorada e eu sempre respondia que nunca, afinal ele já tinha uma namorada.  E ela se chamava Mary!  Um certo dia, quando saí da escola, dei de cara com o Roberto.  Ele estava à minha espera para dizer que tinha terminado o namoro com a Mary e que agora eu não tinha mais desculpas para não ser sua namorada.  Na época, eu vivia choramingando pelos quatro cantos de meu quarto por causa do meu ex-namorado pois ele tinha acabado o nosso namoro há poucos dias.  Quando o Roberto me disse aquilo, as sábias palavras de minha querida avozinha Joana D’Arc, logo me vieram à cabeça:  ela dizia que a gente só esquece um amor quando arruma um outro.  Resolvi aceitar namorar o Roberto.  Mas como não o amava, vivia pensando no outro.…  Mesmo assim continuei insistentemente a ouvir os conselhos da minha querida avó, pois a mesma dizia ter muitas experiência e sabia muito bem o que estava me dizendo.

Roberto e eu passamos a nos encontrar todos os dias na saída da escola.  Bem, nem é preciso dizer que a Mary fazia de tudo pra ter o Roberto de volta e como ela não conseguia nem que ele olhasse pra ela, passou a me detestar e a tentar de tudo pra infernizar a minha vida.  Falava mal de mim para os meus amigos; dizia que eu era uma perua muito da metida; espalhava que o meu ex tinha suas razões de ter terminado comigo e coisa e tal…  Eu tentava não ligar para as coisas que ela dizia porque sabia que ela estava morrendo de ciúmes e de inveja de mim porque, é claro, eu estava com o homem que ela pensava ser dela.  Mas, com o tempo, a situação foi ficando insuportável.

Um certo dia, ao sair da escola, vi o Roberto  “de altos papos”  com a Mary, os dois sentados no banco da praça, onde ele costumava me esperar.  Fiquei “tiririca da vida” ao ver aquela cena.  Já comecei a achar que eles tinham voltado e os dois tinham decidido me mostrar as coisas ali, no meu nariz.

As minhas amigas de escola que sabiam de toda estória tentavam me acalmar.  Uma delas disse: “Liga não, Mery!  Esse cara é um canalha e você não merece esse tipo de homem”.  A outra falou: “É isso aí, ele se revelou um f.d.p. (desculpem, mas os ânimos não estavam bons) de marca maior”.  Uma terceira disse ainda:  “Já era de se esperar dele uma atitude desse tipo, afinal, os homens são todos iguais”.  Parecia até assembléia da União das Mulheres Nordestinas!  Eu ouvia minhas amigas e, ao mesmo tempo, tentava encontrar uma maneira de solucionar aquele problema.  Foi então que tive a idéia de enfrentar os dois.  Isso mesmo: decidi enfrentar aqueles dois safados ali mesmo e pedir uma explicação ao vivo e à cores ao Roberto.  E la fui eu em direção ao casalzinho desavergonhado, apesar de ainda perplexa com tudo o que acabara de presenciar.

Conforme me aproximava dos dois, sentia uma adrenalina nunca sentida antes.  Não era medo, era uma mistura de coragem, decisão, euforia, audácia e bravura.   Conseguia até me sentir orgulhosa por ter tomado aquela decisão.  Os dois só me viram quando eu já estava ali, frente a frente.  Eles se levantaram rapidinho e ainda por alguns segundos ficamos ali os três, plantados no meio da praça, cara a cara, sem nada dizer.

A Mary estava de um amarelo que só a flor de maracujá depois da chuva.  Finalmente ela tomou chá de “symancol” e desapareceu.  O Roberto me veio com um sorriso meio sem graça e como se nada tivesse acontecido, aproximou-se de mansinho e tentou me beijar.  É claro que virei o rosto.  Ele não gostou da minha atitude e foi logo dizendo:  “Pelo o amor de Deus, Mery, não é nada disso o que você está pensando; essa garota não larga do meu pé e você mesmo sabe disso”.  Eu estava pra lá de furiosa e soltei os cachorros na rua: “Olha aqui, seu pilantra, estás pensando que sou trouxa, é?  EU VI vocês dois aí bem juntinhos… pareciam dois pombinhos…  Só faltava se beijarem na boca e agora tá querendo que eu acredite nessa lenga-lenga de inocente”?!...  “Calma, Mery, por favor, calma!  Já disse que eu não tenho mais nada a ver com a Mary.  Ela veio aqui somente me contar que vai fazer um curso de pára-quedismo, aquela maluca.  Eu juro pra você que foi só isso.  Você não está vendo que ela tá é querendo me impressionar.  Ela acha que com isso vai me ter de volta”.  Fez uma pausa e depois acrescentou:  “Ela vai é morrer com essa história de saltar de pára-quedas!  Além do mais, Mery, eu não acredito nessa história.  Ela não tem coragem. Isso é coisa pra homem”.

Se antes eu já estava em estado de choque, agora poderia dizer que estava extasiada, nas nuvens, muito além de Bagdá.  Aquela frase do Roberto me deixou suspensa no ar!. Curso de pára- quedismo?!…  Onde?!…  O meu coração saltava de tanta alegria.  Os meus olhos se encheram de lágrimas.  A essa altura já não tinha a menor importância ter visto o Roberto coladinho com a Mary, juntos, sentados ali no “nosso banco”, na pracinha.

Enquanto o Roberto enxugava minhas lágrimas, balbuciava, mostrando arrependimento: “Mery, por favor, páre de chorar.  Eu amo você e quero que você acredite em mim”.  “Eu não gosto de ver você chorando assim”.  Mesmo com apenas 19 anos de idade, a vida já tinha me ensinado que comercial de TV e homem bonito é tudo uma coisa só:  você tem que pensar duas vezes antes de acreditar no que eles dizem!  Olhei bem pra cara dele e falei gentilmente:  “Cala essa boca, seu safado, e vai logo me dizendo onde é que vai ser realizado esse curso de pára-quedismo”.  “Sei lá onde é que aquela maluca encontrou isso!”  respondeu ele, “parece que é no quartel da PM.  Segundo ela, o curso só é permitido para policiais militares, mas como ela é assim com o comandante (esfregou os dedos indicadores um no outro), parece que ele deu um jeitinho pra ela participar do curso.  “A turma vai ter vinte e um homens e só ela de mulher”.  Meu Deus! Eu estava impressionada com tudo o que acabara de ouvir!  Foi só o Roberto terminar de dizer aquilo para que eu já começasse a me imaginar fazendo aquele mesmo curso.

Deixei o Roberto falando sozinho e me mandei, afinal, para um simples encontro casual, ele estava sabendo até demais sobre os objetivos da pirua tiazinha.  E foi desta forma que a vida encontrou meios de me levar a realizar o grande sonho da minha vida: PÁRA-QUEDISMO.

Naquela noite não consegui dormir.  Virava na cama de um lado e do outro.  Parecia bife na chapa.  Fiquei lembrando da primeira vez em que ouvi falar em pára-quedismo:  numa reportagem para a televisão, um oficial PQD do Exército mostrava seus soldados fazendo os exercícios de aterragem e de salto.  Primeiro, todos se arremessando de uma torre bem alta…  depois vieram os saltos, os pára-quedas redondos bem branquinhos descendo devagar até o chão.  Fiquei achando que aquele oficial PQD era mágico.  Aquela imagem me deixou hipnotizada - Eu tinha apenas oito anos de idade.

No dia seguinte, por volta das sete da manhã, eu já estava atravessando os portões do Quartel do Comando Geral da PM do Piauí, para pedir informações sobre o curso.  Lá chegando, fiquei um pouco impressionada com tantos homens fazendo exercício físico no pátio central do QCG.  O cheiro também não era lá muito bom. No corpo da guarda (recepção), havia um bando de soldados de capacete e com fuzil na mão que recebiam ordens de um sargento, que era o comandante da guarda naquele dia, conhecido pelo incomum nome de Da Silva.  Mesmo de longe, observei que eles estavam um tanto quanto curiosos com a minha presença ali, tão cedo.  Eles estavam me olhando e comentando baixinho entre si.  Finalmente um deles se adiantou um pouco e perguntou:  “A senhorita deseja alguma coisa?”  Atrás dele veio mais outro soldado, seguido por outro, depois outro, e mais outro.  Quando me dei conta, eu já estava completamente cercada de soldados por todos os lados... Parecia uma ilha turística.

Passei a me sentir um pouco insegura e quase que neguei meu real objetivo, dizendo uma mentira qualquer.  Porém a força de realizar o meu grande sonho falou mais alto.  Foi quando levantei minha cabeça, joguei o cabelo pra trás, respirei fundo e disse sem titubear:  “Eu gostaria de ter mais informações sobre o curso de pára-quedismo que está sendo realizado aqui no QCG da PM”.  Os soldados recuaram e se entreolharam meio atônitos.  Parecia que não tinham entendido a minha pergunta.  Um deles, um tanto debochado e com um jeitinho assim meio estranho (na época, eu ainda não conhecia a palavra “gay!”), colocou as mãos na cintura e falou alto, quase gritando, e de forma beeeemm com-pas-sa-da: “Maaass… se-nho-ri-ta!…  Fi-que lo-go sa-ben-do que es-se cur-so de pá-ra-que-dis-mo es-tá des-ti-na-do so-men-te pa-ra ho-mens… e dos for-tes!… En-ten-deu ou quer que eu ex-pli-que no-va-men-te?...  Ho-mens bem for-tes!” (enquando falava, o soldado fazia pose de Hulk)  E continuou: “E-les fo-ram es-co-lhi-dos a de-do!”  Fechou essa última frase mostrado os dedos das mãos. (Juro que vi alguns resquícios de esmalte).  Todos riram com o atrevimento dele!  Eu, particularmente, estava chocada com a audácia do soldadinho, que tirava onda com a minha cara.  Ele agiu como se quisesse me deixar de fora… mas de um lugar onde ele menos tinha poder de decisão.  Vi que um vulto se aproximava, por trás dos soldados.  Torci para que fosse algum superior chegando para acabar com o motim.  E era: o comandante da guarda,  Sargento Da Silva, deu ordem para que todos voltassem ao posto da guarda e depois falou: “Como a senhorita mesmo ouviu o cabo “Zé Malandro” falar, o curso é somente para militares da PM e as aulas já começaram hoje desde sete da manhã”.

Confesso que me controlei para não rir do “nome” do tal cabo PM, mas fiz de conta que ainda podia levar a sério qualquer informação vinda daqueles policiais.  Falei para o comandante da guarda que eu conhecia o então comandante da PM, Coronel Canuto Tupy Caldas, apelidado por todos de Coronel CTC, e que eu queria falar com ele.  “O comandante ainda não chegou, senhorita.  Não é do costume dele chegar tão cedo, mas se quiser mesmo falar com ele, é melhor voltar mais tarde… lá pelas onze horas. Mas vou logo lhe adiantando:  o curso já começou e, repito, é somente para militares.  O número de alunos foi limitado e vai ser muito difícil você ter alguma chance.  Só pra você ter idéia, nem eu pude me inscrever”, disse o pobre sargento, meio desapontado.  E disse mais:  “Agora, se eu fosse você, deixaria de lado essa história de pára-quedismo.  Você é uma garota muito bonita, tem uma bagagem e tanto para arrumar um casamentão.  Vai me dizer que você quer trocar esse lindo vestido por um macacão laranja ridículo?  Vai ter que cortar as unhas também.  Ou você não tá sabendo disso?  Essas suas lindas sandálias vão ser trocadas por um par de coturnos que provavelmente ficarão grandes em seus pés, pois não há forma para fazer coturnos tão pequeninos assim!”.

Deixei ele falando aquelas abobrinhas pras paredes e me mandei do quartel.  Voltei ao QCG às onze em ponto e foi informada que o Cel.  CTC ia ter uma audiência com o governador ainda naquela manhã.  Fui aconselhada a voltar depois das quatro e meia da tarde.  Fui saindo do quartel bem devagarinho, como se não quisesse fazer isso.  Na frente do quartel tinha uma praça e então me sentei no primeiro banco que surgiu na minha frente e fiquei ali não sei por quanto tempo.  Por volta de uma hora da tarde, falei para o guarda que fazia a segurança da casa do Cel. CTC: “Ei, official!… meu nome é Mery e gostaria de falar com o comandante.  Se ele não estiver, falo com a Dona Naná, esposa dele”.  O guarda, que tinha uma metralhadora enorme nas mãos, disse: “Bom, se ele fosse uma cobra, já teria lhe mordido”.  Olhei para trás e dei de cara com um carro preto com placa oficial do governo do Estado do Piauí.  O coronel abriu a janela do carro e me disse:  “Olá, minha querida atleta! Posso saber o que a traz aqui?”  (A expressão “querida atleta” foi usada pelo coronel por causa de uma medalha de ouro que eu ganhei numa corrida de 100 metros rasos, durante os jogos estudantis pelo Liceu Piauiense.  A festa de comemoração no encerramento dos jogos e a entrega de medalhas havia sido no pátio do quartel da Policia Militar e o cel.  CTC foi quem entregou a minha medalha.  Colocando a medalha no meu pescoço, ele disse:  “Você é merecedora do ouro por ser uma atleta perserverante, elegante e competente”).

Cheguei perto da janela e disse: “Coronel Tupy Caldas, vim até aqui especialmente para falar com o senhor.  É assunto muito sério”.  “Então vamos entrar”, disse o coronel.  Quando chegamos a sala de visita, ele perguntou:  “Você já almoçou?” Acenei com a cabeça que não.  “Então você é nossa convidada.  Espere só um pouquinho que já volto”.  E eu quase não me continha mais de tanta felicidade, pois o coronel era um homem muito bom.  E disso todo o mundo sabia. Sentamos à mesa, o coronel, Dona Naná e eu, que tremia que só vara verde.  “Obrigada pela hospitalidade, Coronel Tupy Caldas!”.

“ Mery, Tô mesmo querendo saber o que lhe trouxe aqui, menina.  Você falou que tinha uma assunto muito sério pra me falar.  O que era mesmo”?  Perguntou o Cononel, um tanto curioso.  Limpei um pouco a garganta com um solene pigarro, assim como se quisesse colocar um ar de grande importância no que eu tinha a falar, pois era assim que as pessoas mais velhas faziam antes de começar um discurso, e disse:  “Bem, coronel… o senhor bem sabe o quanto eu gosto de esportes e o quanto isso é importante pra minha vida.  Mas há um esporte bem especial que é, na verdade, o maior sonho da minha vida.  E eu acho que esse sonho está bem perto de se realizar.  Eu quero ser pára-quedista!  Eu nasci para ser pára-quedista!  E sei que o QCG está realizando um curso de pára-quedismo e, mesmo sabendo que o curso está sendo destinado somente para militares da PM do Estado, eu vim lhe pedir para me deixar fazer esse curso”

Depois que eu terminei de falar, veio aquele silêncio macabro.  Parecia que eu estava agora no mais frio deserto do Pólo Norte.  Um frio na espinha me avisava que algo de ruim estava por vir.  E veio a resposta do coronel:  “Mery, minha filha, esse curso é realmente destinado só para militares da PM, que é a única corporação que está custeando todas as despesas do curso.  Eu não tenho como lhe colocar dentro daquele quartel cheio de homens e nem tão pouco fazer a PM pargar pelo seu curso, isso seria completamente ilegal.  Como eu iria justificar uma coisas dessas?”

Bem, como ele mesmo me chamou de atleta perserverante, eu não poderia deixar que ele mudasse de idéia a meu respeito, e falei:  “Mas coronel Tupy Caldas, o senhor acabou de falar que o curso é somente para militares, porém o senhor autorizou a minha quase-xará Mary, a fazer o curso.  Por que é que ela pode e eu não”?

O coronel se engasgou.  Foi preciso beber muita água para voltar a falar.  E disse, finalmente: “Ela me pediu mesmo… é verdade… mas ela estava brincando... eu não acredito que ela tenha coragem de se jogar de um avião…. ela não é tão louca assim!”… e continuou…. “aliás Mery, isso não são coisas pra meninas”.   “Coragem ela tem, Coronel!”  Retrunquei sem pensar! “tanto tem que ela tá lá fazendo o curso, agorinha mesmo!” confesso que não tinha muita certeza disso, mas mesmo assim completei, insistindo.

A Dona Naná olhou pra mim e com um jeitinho meio cúmplice, deu uma piscadela de olho e entrou na conversa dizendo:  “Tupy, se você autorizou a outra Mary a fazer o curso, eu não vejo nenhuma razão para você não deixar esta Mery aqui realizar o sonho da vida dela.  É melhor fazerem o curso as duas Merys ou não vai ter vaga pra nenhuma das duas”.  Fiquei morta de feliz!  Olhei para o Coronel e perguntei, em estilo de ultimato:

“ E então, coronel Tupy Caldas, posso ir lá para o Quartel?  O senhor só tem que ligar e dizer aos instrutores que agora eles tem mais uma Mery na turma” disse entusiasmada!  Ele fez um sorriso meio sem graça, um pouco pensativo, e disse:  “Tá bom… “tá bom… Eu só não posso entender o que leva uma pessoa a querer se jogar de um avião lá de cima…  Eu jamais faria uma loucura dessas!… nem que me pagassem milhões de cruzeiros!”.

Depois de uma pausa, ele continuou:  “Você porém, Mery, terá que pagar seu curso pois eu acho que a PM não vai poder fazer isso.  E outra coisa: Seus pais vão ter que assinar um termo de responsabilidade, isentando a PM de qualquer dano que você venha a sofrer”. YHAAAAA!!!....  Dei um beijo no rosto do coronel Canuto Tupy Calda e outro no rosto da Dona Naná, depois me mandei para o QCG da PM do Estado do Piauí, onde foi realizado o curso que durou sete dias consecutivo.

Meu primeiro salto?!… Este sim foi muito engraçado e inesquecível!  Nesse dia foi também a primeira vez que eu entrara num avião.  Ainda bem que eu estava com o pára-quedas nas costas! Bem, a estória é muito longa e se eu contar tudo, vocês não irão comprar o meu livro:  “Mery Rose - Uma Rosa no Céu”.  Porém, vou contar somente sobre o pouso:  Já com o pára-quedas aberto, não consegui olhar pra baixo porque o reserva ventral estava logo ali, abaixo do meu queixo.  Eu só consegui ver o horizonte e portanto não encontrava o aeroporto, não vi casas, BRs, cidade alguma, pois estavam abaixo dos meus pés. Não encontrava nada vezes nada.  Aliás, lá de cima eu só via um enorme tapete de mata verde, que mais parecia a floresta amazônica - Era um mundo verde sem fim - Lembro que fiquei olhando para o horizonte um bom tempo e me emocionei ao ver o encontro da céu com a terra.  Fiquei mesmo impressionada com toda aquele beleza! De repente, lá longe, vejo uma tira de fumaça subindo.  E todo o mundo sabe que onde tem fumaça tem fogo e onde tem fogo sempre tem gente fumando.

Direcionei meu pára-quedas pra lá, pois eu sabia que iria precisar da ajuda de alguém pra poder encontrar meu caminho de volta para a cidade. Era uma clareira.  E o pouso foi uma comédia: aterrisei bem no meio de uns coqueirais de babaçu e o meu lindo pára-quedas T-10, fez um estrago no pedaço.  Eu não tinha a menor idéia de onde estaria e como iria sair de lá!  Onde eu teria pousado? Para o sul, norte, leste ou oeste?!... Aquilo era ainda o Maranhão? (os saltos foram realizados no Aeroporto de Caxias-MA).

Depois do pouso, fiquei ali bem quietinha por alguns minutos, como se esperasse por algum milagre.  De repente, ouço algo que parece alguém resmungando.  Era um senhor de mais ou menos de 60 anos.  Ele ficou parado, de pé, pálido, olhando pra mim.  A seu lado vinha um jegue, carregando seus pertences nas costas, que continuou a vir na minha direção.  O velhinho correu para a frente do jegue e tentou fazer com que ele mudasse de rumo, que voltasse pra trás, ou que passase bem longe de mim.  Vi que algo de errado estava acontecendo com aquele senhor.  Mais que depressa tentei falar com o desconhecido que parecia não querer falar comigo.  Nem mesmo olhar pra mim ele queria.  O jegue parou a alguns metros na minha frente e percebi que o velhinho, de costas pra mim, estava tremendo por inteiro.  Como o animal se negava a sair do lugar, para minha sorte o homem também não poderia sair e, assim, poderia eu iniciar a conversa.  Eu achei que o velhinho estivesse com medo do pára-quedas ou até mesmo de minha roupa:  eu ainda estava de capacete e vestia um macacão laranja e coturnos.  Levantei do chão, ainda limpando a poeira, ou melhor, a imensa sujeira que fizera no meu macacão de salto.

Olhei para o pobre coitado, aproximei-me dele e disse:  “Oi, tudo bem?  O senhor por acaso sabe me dizer onde é que estou?”  Ele arregalou bem os olhos, deu uns dois passos pra trás, colocou a mão na boca, como que admirado, e depois disse meio gaguejando:  “Virgem Nossa Senhora, minha mãe santíssima! É uma mulher!!!...”  E completou:  “Aqui é o Maranhão. E a senhora?  De onde vem?!”

Hoje, dos 23 alunos da primeira turma de pára-quedismo do Estado do Piauí, realizado no QCG da PM, no dia 02/02/74, somente EU, Mery Rose, continuo saltando.  Se você está lendo esta crônica e é um dos que brevetou junto comigo, por favor, me escrever: MeryRose@MeryRose.com, que ficarei muito grata, pois ainda tenho a doce esperança de beber um champanhe com você.

O AMOR ENTRE MIM E O PÁRA-QUEDISMO É RECÍPROCO E VERDADEIRO!

UM ESPECIAL AGRADECIMENTO `A COMUNIDADE DO PÁRA-QUEDISMO MUNDIAL, COM QUEM CONVIVI NOS ÚLTIMOS 30 ANOS.

Love, and Blue Skies!

Voeeiii!….

Mery Rose
San Francisco, 01/01/2004
California - USA

 
 
 
 
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